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Rodrigo Bueno

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Entrevista: Rodrigo Bueno, jornalista e torcedor do Galícia (17/08/2006)


Rodrigo Bueno é jornalista da  Folha de São Paulo desde 1995 e colunista de futebol internacional do jornal desde 1997. Participou da cobertura da Olimpíada de 1996 e das Copas do Mundo de 2002 e 2006. Formou-se em jornalismo pela PUC-SP e cursou Educação Física na USP. Na TV, já atuou como comentarista na TV Cultura e vem trabalhando na ESPN Brasil há três anos. 

Entrei em contato com ele de forma inusitada: em 19/01/2003, li seu artigo “Qual é o seu time? (versão mundial)“, no qual comentava uma pesquisa do Datafolha sobre os tamanhos das torcidas. A pesquisa ouvira 145.59 torcedores brasileiros e, entre os clubes que apareciam com apenas um voto, apareciam tanto clubes internacionais  como o Real Madrid quanto clubes pequenos como o Galícia.

 

Isso me levou a escrever um email para Rodrigo comentando que eu era torcedor do Galícia, e ele me respondeu dizendo que conhecia bem o Azulino, já que seu avô chegou a atuar como goleiro na época da fundação!

Nessa entrevista, vamos conhecer um pouco de Rodrigo, suas opiniões sobre o futebol e, claro, sobre o Galícia.

Nome: Rodrigo Tadeu Guerra Bueno
Idade: 33 anos
Email: rbueno@folhasp.com.br
Página no
Orkut
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=12429641322050030229
Profissão: Jornalista
Cidade: São Paulo
Hobbies: Futebol, ciclismo, xadrez, videogame,cinema, música e literatura
Clube preferido na Bahia: Galícia
Clube preferido no Brasil: São Paulo
Clubes preferidos na Espanha: Barcelona/Real Madrid (aprecio em geral os times de grande projeção internacional em cada país)
Jogadores preferidos (em atividade): Zidane não entra mais aqui, certo? Pena. Mas gosto de Henry, Ronaldinho, Messi, Robben, Nesta, Gerrard, Shevchenko, Riquelme, Buffon, Cristiano Ronaldo, um monte de gente.
Jogadores preferidos (do passado): Vou colocar os que de fato vi atuar: Van Basten, Gullit, Rijkaard,  Maradona, Zico, Careca, Zidane, Platini, Klinsmann, Francescoli, Valderrama, Higuita, Baresi, Maldini, Zoff, Baggio, Hagi, Weah… um monte de gente.
Lembra-se de alguns grandes
jogadores que já passaram pelo Galícia?
Meu avô, Manuel Guerra y Guerra, que atuou como goleiro no farol da Barra no primeiro jogo do clube, pelo menos. Não tinha muita técnica, mas garra e vontade de vencer sobram nele até hoje. Zamora, a lenda espanhola do gol, era sua inspiração. Meu avô, cuja memória ainda é bem boa pela  idade, diz que Eduardo Barral, seu amigo, era um craque.

Como você se tornou jornalista desportivo? E como foi parar na Folha de SP?

Me formei em jornalismo em 1994 pela PUC-SP. Antes de me formar, trabalhei cerca de dois anos como assessor de imprensa, mas sempre tive intenção de trabalhar com jornalismo esportivo. Mais que jornalismo, amo esporte e sempre quis trabalhar de alguma forma nessa área. Cursei Educação Física na USP também, mas não tive como concluir o curso devido ao trabalho na Folha. Em dezembro de 1994, concorri a uma vaga de repórter de Esportes na Folha de S. Paulo e consegui sucesso (havia tentado antes estágio durante a Copa de 1994 no jornal, mas não tive sucesso nessa empreitada). Em janeiro de 1995, comecei a trabalhar na Folha paralelamente ao Curso Abril de Jornalismo, quando tive a oportunidade de ficar algumas semanas na Placar.

O que mais aprecia na sua atividade?

Muitas coisas… Não tenho uma rotina como um trabalhador comum de segunda a sexta em horário comercial, não preciso acordar cedo, na maioria das vezes, posso ver uma infinidade de jogos e ainda receber por isso, consigo fazer algumas viagens interessantes e conhecer pessoas bacanas. Escrevo, o que adoro, e sobre esportes, o que amo. Estou bem realizado nesse sentido.

E o que menos gosta?

O estresse. Às vezes dá vontade de chutar tudo para o alto. E às vezes tenho saudade do tempo em que tinha todos os finais se semana livres.

Você é descendente de espanhóis?

Meu avô materno é espanhol, ou melhor galego, até debaixo d’água. Mas minha avó materna também veio de família espanhola (mais da região de Extremadura). Meu sobrenome Bueno, claramente espanhol, é por parte de pai, outro braço da família com alguma raiz na Espanha ainda meio desconhecida.

Qual a sua ligação com o Galícia?

Meu avô chegou a Salvador em 16 de julho de 1931 e trabalhou 20 meses na Padaria Paris, o berço do Galícia em 1933. Ele também trabalhou na Padaria Montanha por 14 meses. Vez ou outra ele me conta coisas do time,
da formação do clube e de sua atuação importante nos primórdios do Galícia. Pouco antes de o clube se firmar no cenário baiano ainda nos anos 30, porém, ele veio para São Paulo (maio de 1934) e perdeu contato com seus
companheiros galegos da Bahia.

Você pode falar mais do seu avô? Ele mora em SP ou na BA?

Meu avô era um humilde empregado na padaria onde o Galícia germinou. Era amigo dos dirigentes, membros da comunidade espanhola em Salvador. Floriano, Lauriano, Ramiro Castro e Barral eram alguns colegas ligados ao time, que lutaram pela fundação do clube. Cheguei a fazer uma consulta há alguns anos para ver se o nome do meu avô constava na lista de fundadores, mas parece que não está. Consta um Guerra, mas não seria ele (o sobrenome é bem comum entre os galegos). Meu avô diz que teve que trabalhar no dia da fundação do Galícia, e por isso não foi na reunião inaugural do time.

Meu avô, que nunca foi muito de aparecer, era adolescente na época da formação do Galícia e contribuiu no que pôde para ajudar o desenvolvimento do clube.Além de ter provavelmente ajudado com alguma graninha em certo momento, foi para o gol em um jogo crucial para a formação do time mesmo não sendo, digamos, essa sua vocação. Meu avô conta que faltavam quatro jogadores para completar os 11. Ele foi um dos quatro que completaram o elenco, que foi a campo e venceu. Havia certa dificuldade para arrumar um time. O futebol, no entanto, era uma distração boa pare ele, sempre um grande esportista. Gosta de jogar dama, xadrez, dominó… chegou a ganhar de Bakumenko, que foi campeão mundial de damas, sua especialidade.

Ele mora em São Paulo, para onde se mudou nos anos 30. Criou simpatia na capital paulista pelo Santos Futebol Clube numa época em que o alvinegro praiano não era nem de longe uma potência (só teve um título paulista até 1955). Gostava, porém, do slogan do Santos de ser o ”campeão da técnica e da disciplina”. Como chegam poucas informações do Galícia em São Paulo, ele teve pouco conhecimento do andamento de seu clube de coração mesmo no Brasil.

Você já foi a jogos do Galícia?

Ainda não. Mas um dia terei essa chance. Gostaria que fosse ao lado de meu avô, que está com 92 anos, mas sei que isso não será uma coisa fácil de acontecer.

Quais os maiores problemas que uma equipe pequena como o Galícia tem que enfrentar no atual futebol globalizado?

Acho que nunca tivemos um momento tão favorável para as equipes consideradas pequenas. Não que elas estejam bem, mas o cenário, esse mundo globalizado, me parece favorável aos times mais modestos. A diferença entre grandes e pequenos tem diminuído no Brasil. Temos vários exemplos de clubes outrora humildes em vários Estados que apareceram bem nos últimos anos. O que era o Atlético-PR, por exemplo, há alguns anos e o que é hoje? O São Caetano fez final de Libertadores e por alguns pênaltis não fez uma final de Mundial interclubes com o Real Madrid. Vemos vários campeões estaduais inéditos pelo país.

Brasiliense, Ipatinga, Criciúma, Juventude, Baraúnas… A Copa do Brasil é uma boa vitrine para vários times. Não é preciso muito dinheiro para ajeitar um time. Não tem mistério. Um pouco de organização, trabalho sério, revelação de atletas e apoio de torcedores pode resultar em grandes coisas, mudar a história de um clube.

Os clubes pequenos no Sul/Sudeste têm mais suporte das Federações locais que os do Nordeste?

Os clubes pequenos dessas regiões têm problemas parecidos com os de times pequenos de outros Estados. Apenas contam com uma vantagem econômica por questões geográficas. O interior paulista, por exemplo, é muito rico
(segundo mercador comercial do país). Há no Sudeste e no Sul cidades pequenas, mas com boa estrutura, com dinheiro etc. E esses clubes disputam Estaduais bem mais ricos que alguns outros. Apesar de tudo, nos últimos
anos, muitos clubes pequenos tradicionais quebraram, caso de Ferroviária, XV de Piracicaba etc. Alguns times emergentes, como Paulista, Ituano, Santo André, cresceram e ganharam espaço nacional, muito com ajuda de
prefeituras e de um modelo mais moderno de administração.

O que a diretoria poderia fazer para reerguer o Galícia? Profissionalizar é o caminho?

Profissionalizar seria o caminho mais correto. Mas dá até para fazer sucesso sem isso. Basta uma gestão comprometida com o clube, disposta a fazer as coisas que precisam ser feitas. O modelo antigo de administração dos clubes brasileiros precisa ser enterrado. Não sei bem como está a estrutura do clube hoje, mas ao menos um bom Centro de Treinamento precisa ser trabalhado. Revelar atletas não custa nada e dá bom retorno. Mesmo que o time venda alguns de seus valores, lucrará com isso.

O Vitória cresceu muito com suas categorias de base nos anos 90. A queda dos grandes na Bahia me parece mais uma grande oportunidade para o Galícia e outros times menos poderosos do estado ganhar espaço. A Bahia é um Estado emergente, cada vez mais rico e com um povo alegre que comparece em massa nos estádios.

O Galícia precisa pegar essa onda positiva para dar um salto na sua história. Manter as finanças equilibradas, trabalhar bem no marketing, fazer parcerias com empresas ou clubes sérios… há vários caminhos e opções para um time vingar hoje no futebol.

Qual a imagem atual do futebol baiano no eixo RJ/SP?

Nunca esteve pior. Muito por causa da queda de Bahia e Vitória para a Série C, claro. Mas tem o fechamento do Palmeiras Nordeste, que pintava como uma possível terceira força, e a ausência de outros clubes no cenário nacional. Pernambuco e Ceará hoje têm mais visibilidade no eixo Rio/SP por causa da fase mais feliz de seus times.

Você acha que a FBF é responsável pela atual situação do futebol baiano?

Certamente. Talvez não seja a única responsável e talvez não seja a maior responsável, mas tinha como cuidar melhor da situação. A Federação Paulista é muito criticada porque ajudou a ”matar” muitos times pequenos no Estado. Mas esses também pagaram por administrações nocivas. Grandes clubes do país hoje vivem chorando e pedindo ajuda ao  governo federal, estadual, municipal e às federações. Mas a maior salvação está no próprio clube. São Paulo e Inter, melhores times do país hoje, são exemplos de clubes bem administrados e que não precisam de socorro. Caminham bem pelas próprias pernas. O ideal é que todos os clubes do país sigam esse exemplo.

O que a FBF poderia fazer para revigorar o futebol baiano? O futebol da Bahia tem espaço para uma  terceira força?

Se pensarmos no Paraná e em Pernambuco, que tem três times fortes, fica claro que a Bahia comporta e precisa de uma terceira força. Ser um time tradicional, como é o Galícia, é um bom começo. A federação tem que fazer cada vez mais um campeonato estadual rentável, em todas as suas divisões, fazer Estaduais com times sub-20, sub17, buscar ajudar os clubes em suas estruturas, ir atrás de investidores, criar promoções ou eventos para atrair público e mídia, muita coisa.

Por que o Brasil não ganhou a Copa?

A insistência em alguns jogadores que não estavam em sua melhor forma foi um dos fatores apenas. Faltou uma preparação final melhor, com mais jogos e amistosos para valer. Houve um certo menosprezo com os adversários de uma forma geral, dado o tamanho do favoritismo que o time tinha. Alguns atletas que estavam em boa fase  reconhecidamente não renderam bem, com destaque nesse item para Ronaldinho, o melhor jogador do mundo. E, o que pouca gente fala, é que tem mérito do adversário também. Zidane e Henry são jogadores sensacionais que teriam  lugar sim na seleção brasileira titular e encaixaram um grande jogo contra o Brasil.

Quem vai ganhar o Brasileirão 2006?

São Paulo.