A torcida galiciana está revoltada com o que crê poder ter sido um “jogo de cartas marcadas” em Guanambi. Enquanto assistiam, entre angustiados e extasiados, ao time azulino bater o líder e até então invicto Independente por 3×1 em Pituaçu, na capital baiana, na tarde desse domingo, em jogo marcado por muita emoção, os granadeiros não podiam acreditar nas notícias que chegavam pelo celular desde Guanambi: o time local, que precisava desesperadamente vencer o Leônico por dez gols de diferença para superar o Galícia nos critérios de desempate, marcava um gol depois do outro, numa eficiência assombrosa e milimétrica que deixaria envergonhada até mesmo a máquina húngara de 1954, conhecida pelas goleadas retumbantes que impunha aos adversários.
Não que o Leônico seja um adversário de assustar, longe disso. O “Moleque Travesso”, lanterninha da competição, fez uma péssima campanha ao longo do campeonato, tomando mais de uma goleada (veja todos os resultados). Mas os números do jogo de ontem impressionariam até o mais calejado observador do futebol: no jogo de ida, o Guanambi vencera por 4×0 em Salvador. Os guanambienses, que, até então, haviam feito 15 gols em nove rodadas (1,67 gols por jogo), conseguiram marcar 10 em uma só partida. Já o Leônico, que levara 29 gols até a nona rodada (3,2 por jogo), “superou-se” ao levar 10 tentos em noventa minutos! Noventa minutos? Bem, “um pouco” mais do que isso, já que o último gol do Guanambi saiu nos CINCO (!) minutos de acréscimos da etapa final! O próprio presidente da Federação Baiana de Futebol, Ednaldo Rodrigues, em entrevista à Rádio Sociedade após o jogo de Pituaçu, declarou-se perplexo ao tomar conhecimento de acréscimos tão longos num jogo que já estava definido em 9×0 ao final do tempo regulamentar.
Outra coisa que impressionou a torcida do Galícia foi o “timing” do resultado. Com os dois jogos iniciados ao mesmo tempo, enquanto em Salvador o Galícia empatava em 1×1 ao final da primeiro etapa, em Guanambi a equipe local ia para o vestiário já com 4×0 no bolso, ou seja, quase a metade do necessário para garantir-se na final – se o Galícia ganhasse por escore simples, o Guanambi precisaria de “apenas” nove gols de diferença contra o Leônico .
No segundo tempo, o Azulino soteropolitano conseguia virar o jogo e fazer 3×1 no Independente, o que aumentava de nove para dez o “goal average” que o Guanambi necessitava. Mas em Guanambi, a azeitada “máquina” local desprezava todas as impossibilidades e fazia um gol depois do outro: 5×0, 6×0, 7×0, 8×0, para desespero dos galicianos em Salvador. No finzinho do tempo normal, o Guanambi emplacava o nono gol. E enquanto o jogo de Salvador terminava, o de Guanambi era “agraciado” com cinco minutos extras de desconto, tempo mais do que suficiente, pelo ritmo vertiginoso da goleada, para o time local sentenciar o jogo com o décimo gol e assim garantir a classificação e alijar o Galícia das finais.
Choro de perdedores?
Festa em Guanambi, choro e ranger de dentes em Salvador. A torcida galiciana não podia crer no resultado, os comentaristas da Rádio Sociedade não tinham palavras para descrever o ocorrido. Coisas do futebol? Farsa? Armação? Como explicar um placar tão elástico e exato, já que foram justamente os dez gols necessários para a classificação?
Segundo Ednaldo Rodrigues, ainda falando à Sociedade, a Federação esmerou-se para garantir a lisura do resultado, enviando inclusive dois observadores especiais a Guanambi, um deles acompanhando o ônibus do Leônico, para evitar possíveis “problemas”. Mas não é o que acham alguns torcedores do Galícia. Um deles, entrevistado pela Sociedade, citou rumores segundo os quais Samuel Leite, dirigente das divisões de base do Leônico, teria denunciado, em entrevista à Rádio Excelsior durante a semana, que o Guanambi teria oferecido a famosa “mala preta” para o Leônico “amolecer” o jogo. Roberto Serret, ex-presidente galiciano, já havia alertado, alguns dias antes do jogo, que o Galícia deveria ficar de “sobreaviso” contra alguma possível “armação”.
Para colocar mais água na fervura, torcedores do Guanambi que estiveram presentes ao jogo comentavam na comunidade do time no Orkut que o placar deveria ter sido ainda mais elástico, já que o seu time perdera inúmeras oportunidades e poderia facilmente ter chegado aos quinze gols. O time chegou a desperdiçar um dos três (!) pênaltis que teve a seu favor. Já na comunidade do Galícia, tal superioridade somente reforçou a suspeita de que o Leônico teria favorecido o adversário fazendo corpo mole.
Desdobramentos?
Ednaldo Rodrigues, pressionado pelos comentaristas da Rádio Sociedade sobre qual seria a atitude da Federação, afirmou que, se fosse comprovado qualquer tipo de acordo em Guanambi, a FBF tomaria as providências cabíveis. Mas suspeitas são somente suspeitas enquanto não há provas. Por isso, o Galícia pretende mobilizar a imprensa e os torcedores para que se investiguem as circunstâncias do jogo de ontem em busca de evidências que comprovem se houve ou não má-fé por parte dos envolvidos. O time planeja levar, nos próximos dias, todos os seus atletas à sede da Federação para exigir que esta promova uma séria investigação do ocorrido.
Alguns torcedores mais indignados, como Fábio Gagliano, anteciparam-se às medidas da diretoria azulina e enviaram emails à Federação (leia ao final do texto) pedindo até que, com base no Estatuto do Torcedor, seja suspensa a competição, no que foram seguidos por outros como Eduardo Matta. Eduardo, depois do resultado de ontem, viu reforçada a sua proposta, feita há algumas semanas, de que o Galícia deveria desfiliar-se da FBF e filiar-se à Federação Sergipana de Futebol. Ele acredita que só assim o Galícia poderia escapar do que vê como uma sistemática “perseguição” da Federação ao time granadeiro, perseguição que tornaria impossível ao clube reerguer-se e voltar a ocupar um lugar de destaque no futebol baiano.
O que acontecerá a partir de agora? Todos os olhos se voltam à reação oficial da FBF aos protestos galicianos, bem como à divulgação da súmula oficial da partida de Guanambi, a ser feita no site da entidade.
Mantidos os resultados, Guanambi e Independente disputarão a única vaga do acesso à Primeira Divisão 2008 em jogos de ida e volta nos dois próximos domingos, com a equipe de Feira de Santana levando a vantagem de dois resultados iguais.
Email de Fábio Gagliano à FBF:
Sr Ouvidor da FBF / Sr Presidente da FBF
Venho, por meio desta, solicitar apuração imediata dos fatos absurdos que ocorreram no município de Guanambi/BA, na data de 23/09/2007 que culminou na vitória da equipe representante daquele município pelo placar esdrúxulo de 10 x 0 sobre a equipe de Leônico, ensejando a eliminação do Galícia Esporte Clube da final da competição que garante o acesso da agremiação vencedora à primeira divisão de profissionais do campeonato baiano de futebol.
Tal placar, exatamente o necessário para a classificação do Guanambi, é flagrantemente inaceitável, sendo motivo de chacota do futebol baiano em nível regional e, até mesmo, nacional, consoante verificado na imprensa falada, escrita e televisada (até mesmo na internet).
• 3 pênaltis assinalados;
• 10 gols assinalados por equipe que, no máximo, havia feito 4 gols;
• 10 gols sofridos por equipe que, no máximo, sofrera 6 gols
• 2 gols assinalados nos minutos derradeiros, após saber-se que a outra partida havia sido encerrada (um deles de pênalti);
• Suspeitas de “acordo financeiro envolvendo as duas agremiações”
• 5 minutos de acréscimo concedidos em uma partida que estava 9×0, onde uma das equipes necessitava urgentemente do décimo gol para classificar-seAceitar-se flagrante resultado consiste em chancelar positivamente um simulacro de partida que objetivou tão apenas garantir ao Guanambi a vaga para a final do campeonato disputado.
Urge que, de imediato, se paralise a competição e convoque-se a sociedade baiana para, ex officio, punir-se as duas agremiações (Leônico e Guanambi), em decorrência da fraude a terceiros que o resultado “arranjado” proporcionou.
Peço, com fulcro no princípio da boa-fé que sempre deve reger a atuação administrativa e, calcado no Estatuto do Torcedor (Lei 10.671, de 15 de maio de 2003), atuação imediata e conclusiva, no prazo de 48 horas, ao término do que, em caso de omissão devidamente registrada (caso não haja resposta no site da FBF) ensejar-se-á para mim o direito de solicitar as penalidades cabíveis no retro-mencionado Estatuto (Capítulo XI) junto ao juízo competente.
Nestes Termos Pede Deferimento,
Fábio Iglesias Gagliano
Torcedor do Galícia Esporte Clube
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